As células cancerígenas são mestres na adaptação. Embora a maioria das células saudáveis possa mudar as suas fontes de combustível para sobreviver a períodos de escassez de nutrientes, muitos tumores desenvolvem uma dependência especializada de certos nutrientes para alimentar a sua rápida divisão. Um desses nutrientes é a glutamina, um aminoácido essencial para a construção das proteínas e do DNA que impulsionam o crescimento do tumor.
Este fenômeno, muitas vezes chamado de “vício em glutamina”, tem sido alvo de pesquisadores há muito tempo. No entanto, um grande obstáculo no tratamento do cancro tem sido a capacidade das células tumorais de “girar” – encontrar vias metabólicas alternativas para sobreviver mesmo quando a glutamina é bloqueada.
Uma nova pesquisa publicada na Molecular Cell identificou um mecanismo específico que permite essa sobrevivência e, mais importante, uma forma potencial de desligá-la.
O papel do piruvato e a “licença metabólica”
Miriam Lisci, da Universidade de Lausanne (Unil), explorou como as células contornam sua necessidade de glutamina usando moléculas ricas em carbono, especificamente o piruvato.
Os pesquisadores descobriram que, para uma célula usar o piruvato como fonte alternativa de combustível, ela depende de uma enzima mitocondrial crítica chamada piruvato carboxilase. Esta enzima não pode funcionar sozinha; requer Vitamina B7 (biotina) para funcionar.
O estudo sugere que a vitamina B7 atua como uma espécie de “licença metabólica”. Quando a biotina está presente, a enzima é ativada, permitindo que o piruvato entre no sistema energético da célula e compense a falta de glutamina. Se esta vitamina for removida ou não estiver disponível, a enzima falha, a “licença” é revogada e a capacidade da célula de crescer e se dividir fica gravemente comprometida.
A conexão FBXW7: por que alguns tipos de câncer são mais vulneráveis
A pesquisa também fornece uma ligação crucial entre mutações genéticas e dependência metabólica. A equipe se concentrou em FBXW7, um gene que sofre mutação frequente em vários tipos de câncer.
As descobertas revelam uma cadeia direta de causalidade:
1. Ocorre mutação: O gene FBXW7 sofre uma mutação.
2. Depleção enzimática: Esta mutação faz com que a enzima piruvato carboxilase desapareça parcialmente.
3. Armadilha metabólica: Sem esta enzima, a célula não consegue mais usar o piruvato de forma eficiente.
4. Dependência: A célula cancerosa fica presa em um estado de dependência absoluta da glutamina.
Esta é uma descoberta significativa porque identifica um subconjunto específico de pacientes – aqueles com mutações FBXW7 – que podem ser muito mais suscetíveis a tratamentos direcionados ao metabolismo da glutamina.
Implicações para a futura terapia do câncer
Durante anos, os ensaios clínicos que tentaram bloquear a glutamina tiveram resultados mistos. Este estudo ajuda a explicar porquê: as células cancerígenas não são estáticas; eles são metabolicamente flexíveis. Se uma via for bloqueada, eles simplesmente mudam para outra, como a via do piruvato.
Ao compreender este “plano B”, os cientistas podem avançar para modelos de tratamento mais sofisticados. Em vez de visar um único nutriente, as terapias futuras podem concentrar-se na interrupção metabólica simultânea – bloqueando tanto o combustível primário (glutamina) como o mecanismo de reserva (a via do piruvato dependente da biotina).
“Esta investigação abre novos caminhos para a concepção de estratégias terapêuticas inovadoras que tenham em conta a grande flexibilidade metabólica das células tumorais”, conclui Alexis Jourdain.
Conclusão
Ao identificar como a vitamina B7 e a enzima piruvato carboxilase permitem que as células cancerígenas contornem a escassez de nutrientes, os investigadores descobriram uma nova vulnerabilidade que poderá levar a tratamentos contra o cancro mais eficazes e multi-direccionados.
